Como podes chamar-me
Para exorcizar as trevas de outrem
Se eu mesmo estou cercado de fantasmas
Coberto pelo manto da escuridão?
Se mal discirno o meu próprio caminho
E não enxergo esquerda e direita, norte ou sul
Como pode alguém chamar-me de luz
Quando sou um cego a guiar outros?
Não...olha, vê, toca!
Acaso não vês minhas feridas?
Não sentes o fedor de minha carne apodrecida?
Ou falta sangue e pus para que me notes?
Quem, eu te pergunto, quem
Quem tu enviarás para curar as minhas feridas?
Quem expelirá os meus demônios, os meus tormentos
Quem mergulhará para retirar-me das trevas?
Se tu soubesses...
Que debaixo de tanta cordialidade e timidez,
Da figura ridícula e medrosa que transpareço ser
Quanto ódio, quanto rancor, quanta dor,
Ira, amargura, cólera, desejo de vingança
Ah, se soubesses quem eu sou de verdade!
Ah, se soubesses...
O quanto odeio a ti e a todos!
Porque, se me deixassem, salivando...
Teria do que acusar a todos os que me cercam
Como louco, a vomitar meu fel e veneno
Que, há décadas, envelhecem dentro de mim!
Mas...tu sabes.
Sabes de tudo, conheces-me mais do que eu mesmo
Cada dor, cada ressentimento, cada frustração
Cada sonho adiado ou abandonado,
Tu conheces.
Perdoa-me a loucura
Porque, apesar de tudo,
Tua mão insiste em levar-me
A enxergar em ti a minha única esperança.
1 comentários:
Todos temos tantas feridas acumuladas pelo caminho...
"Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte"
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