Ando à noite, as costas cobertas pelo orvalho
Encurvado, apoiado em mãos e pés
Tendo apenas o cabelo como vestimenta
E as unhas duras como cascos
Abaixo a cabeça e mordo o chão
Enchendo os dentes de grama e terra
Bebendo a água barrenta do rio
Junto aos bois que descansam no pasto
Por quê? Por que não me ergo nos pés
E entro no palácio e me sirvo de pão
Enchendo os lábios de vinho
Na companhia dos príncipes?
Acaso pode o louco rei sentar-se junto aos demais
Enquanto não reconhecer o verdadeiro Soberano?
Até lá, sua companhia será a dos animais
E seu banquete, a grama dos pastos
Quando me voltará a razão? Quando entenderei?
Até quando manterei os olhos fechados
E deixarei endurecido o coração?
Ah...confesso-te, não sei
Mas vivo na esperança de que, um dia,
Um dia o Grande Rei se lembrará de mim
E tornará a dar-me coração de homem
E lugar à mesa junto aos seus filhos
Quando? Não sei, acaso pode um animal
Perscrutar os desígnios do Soberano?
Todavia, nele ponho a minha fé,
Um dia Ele me restaurará
E, naquele dia, não comerei mais grama
E roupas alvas vestirão minha nudez
Minhas unhas deixarão de ser cascos
Pois já não andarei encurvado
Naquele dia, o Senhor me dará pão quente
Vinho excelente beberei em taça de ouro
E nunca mais Ele permitirá
Que grama e lama sejam o meu alimento
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